De olho no lance


A pseudo dialética no futebol e os comentaristas improvisados
Paulo Lepetri

Não podemos negar que o futebol foi, e sempre será, um fenómeno relevante na sociedade portuguesa. Ele agrega importantes conceitos sociais que, de certa forma, nutrem um conjunto de diversos signos e códigos culturais. Ele personaliza as cores de uma paixão na herança adquirida em um sentimento muitas vezes inexplicável, habitando raízes profundas da sociedade, como o sentido de povo, de classes sociais, de identidade nacional e de transferência /herança familiar. Na verdade, o futebol nos coloca entre o paralelo da utopia e a denegação do próprio sofrimento (prazer e dor). Ele acaba por ser uma referência pois tem a capacidade de colocar cem mil pessoas a apoiar onze jogadores. Tal fenómeno não seria possível se o sentimento e a ligação a um clube e ao próprio desporto em si não fosse algo imensuravelmente contagiante.

Aproveitando essa fatia fundamental de público, os media sustentam e provocam essa insensatez da paixão, valorizando e incutindo, em opiniões polemizadas, suas verdades absolutas, num conluio de comentaristas improvisados. Com um formato programático referenciado pelos três grandes clubes portugueses (Sporting, Porto e Benfica) a “arena” materializa-se nas retumbantes opiniões de seus analistas.

Na força de seus representantes clubísticos a capacidade de influenciar provoca, através de debates acirrados, recheado de muita polémica, o veneno do anti futebol, o lado perverso e cruel fora das quatro linhas, onde significante e significado se atropelam na conclusão dos seus propósitos em prol de programas decadentes que tentam analisar o futebol português.

Consciente da sua força de abrangência emissiva, os canais de TV criam um vasto número de programas com vários formatos, mas com a mesma essência, a potencialidade das polémicas irreverentes e as discussões acaloradas, como nos programas: Prolongamentos, na TVI24 e Liga D’Ouro, na CMTV.

Conhecedora da sua importância na propagação de opinião e na construção de uma realidade produzida, esse formato de debates, configurado por um moderador e três comentaristas, dos principais clubes portugueses possuem, há mais de uma década e meia, uma relação de sucesso, tendo como fundamental meio de comunicação e informação do mundo do futebol, a televisão.

Também devemos salientar que de todos esses programas que debatem assuntos ligados ao futebol são, de forma inegável, os programas mais importantes, aqueles que têm maior longevidade e com maiores índices de audiência.

Contudo, a configuração informativa presente nestes programas enfoca e revela a ruína do espetáculo perante o formato infalível da audiência, garantindo, através de uma “arena televisiva”, a valorização da barbárie sobre o futebol, proporcionada pelo arquétipo da informação ideológica e da verdade produzida, através da impetuosidade dos então “comentaristas improvisados do futebol” ou, como diria Nelson Rodrigues, dos “cretinos fundamentais”*.

* Cretinos fundamentais - expressão criada por Nelson Rodrigues para definir o arquétipo do tolo que está sem razão, mas contínua teimoso, rude e impetuoso. É aquela pessoa que se posiciona como um papagaio, repetindo argumentos de outros sem fazer as devidas considerações, ou fazendo uso de ideias socialmente aceites, levando a concordância geral sem grandes esforços.