Animals 'Я' Us


(Des)humanidade da Devolução
Rute Rocha

“ADOÇÃO: Foram devolvidas 53 crianças adotadas nos últimos três anos” (OBSERVADOR, 30/7/2019).

Qual é realmente o objetivo deste título/artigo e “tema” que de forma sistemática é exibido nos órgãos de comunicação social?! 
Sem querer retirar a possibilidade de reflexão bem como desvalorizar a gravidade de tais situações, não consigo deixar de sentir a injustiça e a falta de bom senso em relação a todos os outros pais adotantes (mono ou biparentais). Aqueles que para o «superior interesse da criança» vivem numa vida de entrega como qualquer pai biológico.   
Já se deu conta dos «filhos biológicos» que são abandonados à nascença nos hospitais?
Do número de crianças sem «paternidade», os filhos e as filhas de «pai incógnito»? 
Do número de recém-nascidos sem direito à primeira mamada? 
Onde está a “humanidade” destes comportamentos?
Sempre preferi o conceito de animalidade face ao conceito de humanidade. Perdoem-me os psicólogos e os sociólogos, mas de humanidade vamos mostrando pouco e para mim, é um conceito com um sentido cada vez mais pejorativo!!!

Tem ideia do número de crianças “sem pais” que entram nas instituições nestes três últimos anos? Já sem referir as crianças que são acolhidas por maus tratos e violência extrema e/ou famílias de “sangue” que rejeitam passiva ou ativamente os seus filhos.
Desconheço as estatísticas, mas arriscaria a afirmar que o número de crianças em acolhimento é significativamente maior do que o apresentado no título como “devolvidas”.
Choca-me a exigência da opinião pública acerca dos adotantes face aos progenitores. 
Exige-se que os pais/mães adotivos sejam “super-heróis” perfeitos, sem dúvidas ou hesitações…
Lembro que o período de “gravidez” dos adotantes (períodos de espera entre os 3 e os 6 anos) é superior ao dos elefantes! 
Recordo-me de uma grávida, que fazia ecografias sistemáticas ao seu feto, me perguntar porque é que os adotantes “não querem” crianças com deficiências, “não querem” adolescentes, “não querem” crianças de nacionalidades diferentes… 
Não creio que existam diferenças significativas face à animalidade de ambos, adotantes e progenitores, quanto à vinculação afetiva que podem desenvolver ao longo da vida com os seus filhos, tal como nos outros animais não humanos (com as suas crias, juvenis, alevinos). 
Se recorrêssemos mais à nossa animalidade intrínseca e uma educação para a parentalidade, talvez pudéssemos exibir comportamentos mais empáticos para com os adotantes e pelo que deve ser o «superior interesse da criança».
A natureza dá-nos lições… Em comunidades de golfinhos é comum as tias amamentarem os recém-nascidos. 
Em 2011, num zoo na China, um chimpanzé fêmea adotou duas crias de tigre branco após a passagem de um tufão e a rejeição agressiva por parte da progenitora… 
Por fim, em modo de desafio reflexivo, como lidamos com o abandono por parte dos filhos biológicos quando põem os pais num lar, muitas vezes, num abandono total, numa espécie de “devolução”? Existem da mesma forma títulos e artigos publicados sobre este/s Aspectus?


https://doi.org/10.23882/2184-5689-007