Mundo


Bruscamente no Pacífico Sul…
Sílvia Oliveira

Quando me sentei naquela singela piroga de linhas bem esculpidas, rústica, comprida e estreita apercebo-me, à minha volta dum mar brilhante, azul-turquesa adamantino… À minha frente aproximava-se um majestoso e misterioso reino primitivo…

Era como se o Paraíso tivesse surgido, naquele momento, dos confins do tempo!

Em remadas alternadas, à esquerda e à direita e dada a considerável velocidade atingida pela canoa, resultado de um bom remador local, rapidamente dei comigo em solo arenoso.

Em poucos minutos fiquei rodeada de locais, todos do sexo masculino. Falavam a sua língua desconhecida para mim e gesticulavam, depois sorriram, remiravam-me e voltavam a sorrir… e eu sem perceber nada do que se estava a passar.

 Algum tempo depois foram-se retirando, até que ficou apenas um, fui seguindo as suas indicações, melhor dizendo fui atrás dele. Sentei-me na sua lambreta e sem saber o rumo, deixei me levar. Como diz o velho provérbio: “Para quem está perdido, qualquer mato é caminho”.

A estrada era de areia batida e tudo ao redor era muito rudimentar. No percurso quando surgiram as primeiras casas percebi que estava a chegar a uma zona residencial, mas com poucas habitações. Aí, fui deixada junto a um placar de letras enormes que dizia – HOME STAY. Ainda estiquei a mão com algumas rupias, mas o senhor não aceitou.

Em poucos minutos aproxima-se o proprietário daquelas cabanas, vinha com uma criança dos seus seis anos, que olhava para mim sorrindo e escondia-se nas pernas do pai. Simpático e entusiasmado dirige-se a mim a falar Indonésio, fartou-se de falar eu também, mas cada um na sua língua. Eu não entendi nada, obviamente, mas aquela conversa de recetores “falhados”, soube mesmo bem.

Por fim, resolveu mostrar-me uma das cabanas. Quando ele abriu a porta, no lado direito apresentava-se uma cama de palha, o teto era em colmo as paredes de tijolo, no seu estado original, sem pintura, a casa de banho era uma pia, junto a esta tinha um pequeno depósito de água com um baldinho de plástico amarelo, o qual, o senhor esteve a explicar detalhadamente, para que serviria-  tomar banho e deitar água na pia. A casa de banho tinha ainda a particularidade de apesar de contigua ao quarto ser ao ar livre, não tinha teto. Por momentos, lembrei-me daquela música da minha infância, que o meu pai colocava nas bobines de um gravador – “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto não tinha nada” …

Dentro da cabana ouvia-se um som estranho. Gesticulei ao senhor e ele com um ar muito natural, pegou numa cana com umas palhas atadas na ponta, uma imitação da vassoura, varreu o solo debaixo da cama, de onde saltaram dois enormes sapos.

No teto também havia umas teias de aranha enormes. Era obvio que eu não tencionava ficar ali onde não havia comida, água potável, lençóis, almofada, papel higiénico …

Eu sabia que tinha que me ir adaptando às minhas circunstâncias presentes – sair dali requeria “negócio” e negócio requer dinheiro…