Mundo


A Estrada
Sílvia Oliveira

Abri a carteira, nela tinha cerca de dezassete milhões de rupias talvez o correspondente a uns cento e poucos euros. Não é muito para um português, mas na Indonésia é o dobro do salário mínimo mensal.
Não tinha muitas alternativas, senão negociar um valor para chegar a uma das cidades principais daquela Ilha – Dompu ou Bima.
E ali, entre aquela troca de olhares e momentos de espera, tinha de tomar decisões. Tive de criar um cenário, gesticular, mostrar a minha angústia e a necessidade de ir a um hospital, ser vista por um médico. Afinal, tinha sido evacuada de um barco e se interrompi a minha viagem, era porque não estava bem e nesse contexto esforcei-me para que isso fosse cabalmente entendido.
Então, num ato de pura balística, estiquei-lhe a mão com quase todas as Rupias que tinha, e proferi — Bima!
A minha proposta era aliciante, tendo em conta o valor da moeda. O senhor de nome Setia’wan com as suas mãos a apontar para o chão, pedia que eu esperasse e ausentou-se.
Petrifiquei uns quarenta minutos, sem saber o que iria acontecer! Por fim, aparece com uma pequena maleta e com o menino, seu filho, todo arranjadinho, já com uns ténis calçados, percebi a invulgaridade que era sair para a cidade.
Mas eu não ia para Bima, a nossa conversa que apesar de não falarmos a mesma língua, tudo permanecia bem explicito. Dompu, seria o meu destino. Sobre o chão de areia o senhor debruçou-se e desenhou para me explicar que só havia uma estrada, era muito estreita, nem todo o solo era de asfalto, à noite é perigoso conduzir, disse!
E foi assim, que me sentei naquele pequeno jipe, raro meio de transporte, ali, pois, o mais vulgarmente visto, até à hora, eram as pequenas motoretas.
Naquela estrada enquanto era de dia a minha alma enchia-se ao ver aquele majestoso reino vegetal.
De vez enquanto engolia em seco, eram os buracos e nos trilhos costeiros limitava-me a fechar os olhos, quando se cruzavam dois carros, que mais parecia que íamos resvalar pela encosta abaixo.
Quando o crepúsculo ganhou terreno, o céu vermelho vislumbrou-se, mas rapidamente anoiteceu. Foi na escuridão da noite que me apercebi do perigo… as estradas não têm faixas, nem são iluminadas e quando se cruzam dois veículos, para segurança de embate, cada condutor liga o pisca do seu lado para que não colidam um com o outro.
Mas na noite não se conduz e Setia’Wa assim que pôde estacionou. Mas não estacionou num lugar qualquer. Vê-lo num lugar festivo. Quando saímos para a festa, eu sentia-me uma criança com o olhar aguçado sobre aquele frenesim de pessoas entre tendas e sons musicais que eu desconhecia. Seria algum Festival do Sudoeste Indonésio?! Ao fim de algum tempo, por ali caminhando, percebi que também fazia parte das atrações da festa. Primeiro, porque me encontrava numa ilha de religião muçulmana e as minhas vestes não correspondiam ao local, depois porque a minha fisionomia era diferente e o contacto com turistas era pouco habitual.
Setia’wan procurava um lugar para se sentar e jantar, foi quando o menino com aquele olhar negro e doce sorriu para mim e apontando para um banco e fez me sentar. Quando observei os manjares, pensei é aqui que vou comer?? E onde vou dormir…