Sílvia Oliveira

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Sílvia Oliveira

Labuah Bajo, Ilha das Flores, Indonésia

Após cinco horas de Ferry Boat avista-se finalmente o porto de Labuan Bajo, porto de acesso às ilhas de Rinca e Komodo, onde se podem ver os lendários dragões de komodo.

A Ilha das Flores sempre me despertou curiosidade, não só por ser um dos locais de partida para visitar as Komodo Island, mas também porque tinha sido possessão portuguesa no século XVI. Havia em mim vislumbres de avistar alguma igreja católica e alguém que pronunciasse alguma palavra em português. Porém, a minha curta passagem pela ilha não me permitiu procurar, nem tão pouco cruzar-me, ocasionalmente, com heranças portuguesas.

Já era noite, bem cerrada, quando abandonei o cais caminhando por aquelas ruas mal pavimentadas e sem iluminação urbana. Labuah Bajo é uma cidade portuária, simples e pouco desenvolvida. O primeiro alojamento que vi e com receção aberta foi por onde entrei… sorte minha ainda havia um bungalow.

O vislumbre de uma cama era o que mais me apetecia. E assim foi, caí de redondo… mas não tardou muito e começou a primeira reza. As rezas surgem várias vezes durante o dia e a noite, vindas das mesquitas e são transmitidas por múltiplos altifalantes fazendo-se soar e acatar, por toda a cidade. A perturbação do sono, fez-me “ranger” os dentes, mas em poucos segundos eu estava siderada na borda da cama. Aquele foi o mais magnífico cântico que ouvi até aos dias de hoje: uma “voz” acolhedora, harmoniosa, aveludada, leve, bem articulada e sem falhas. Um autêntico cântico dos deuses, se eu estivesse no mar tinha naufragado como os marinheiros encantados pelo canto das sereias homéricas...

Quando amanheceu não tardei a despachar-me, mas, convencida que por ali não se passava nada, deixei-me ficar à mesa onde tomava o pequeno almoço, contemplando, a paisagem marítima que envolvia a ilha. E nas calmas dirigi-me a duas agências que faziam visitas às ilhas Komodo. Infortúnio o meu que as visitas às ilhas saem bem cedo, pois, a viagem até lá são três horas de lenta navegação.

Por momentos senti-me tomada pela lei da gravidade, tudo em mim “caiu”. Foi como se me tivessem tirado o vento das velas! Rendida com a situação fui deambulando para o cais. E sentei-me a observar a dinâmica que se insurgia. Barcos muito rudimentares, típicos da zona… uns a chegarem outros a partirem. Saído do nada, ali, meti conversa com um barqueiro, pescador, que enrolava uma rede de pesca com a ajuda do seu filho, de tenra idade, diria uns oito anos. Apesar da dificuldade em comunicarmos, línguas diferentes, consegui-lhe transmitir o meu desalento e contei-lhe a minha história. Ele olhava para mim, sempre com atenção e eu quase que me derramava em lágrimas por ter perdido a oportunidade de ir ver os dragões – tão perto e tão longe.

Quase lhe perguntei se me podia emprestar o barco, mas o mais certo seria perder-me por águas de Indonésia, sem cartas de navegação…
Um pouco depois o senhor foi-se embora, mas o seu filho permaneceu no barco a tirar os nós da rede. Sem nada para fazer fui ajudar o menino. Paciência de chinês, desempeçar redes. Não chegou a uns quinze minutos, o senhor voltou com dois jerricans cheios de gasolina. Encheu o depósito e apontando com a mão para o horizonte disse-me: Komodo! Komodo!!!